quarta-feira, 16 de março de 2011

Em três meses, CPTM registra 1.577 falhas em trens


Fontes: Diário do Grande ABC - Revista Brasil Ferrovia

Em um período de três meses, entre 1º de novembro do ano passado e 31 de janeiro deste ano, as composições da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) registraram 1.577 falhas, em um total de 197.661 viagens realizadas. Segundo dados da própria empresa, em 2010 o indicador Mean Kilometer Between Failure (MKBF), que mede a quantidade de falhas por quilômetro rodado pelos trens, registrou uma falha a cada 3.677 quilômetros.
Apesar da grande quantidade de falhas, na última década o número de problemas nos trens da CPTM caiu. Em 2001, o MKBF era de 1.675 quilômetros - ou seja, as falhas eram mais frequentes, pois ocorriam em um intervalo menor de circulação. Além disso, a companhia afirma que as 1.577 falhas registradas de novembro a janeiro deste ano representam apenas 0,8% das viagens realizadas no período.
A CPTM não detalhou os tipos de falhas, explicando apenas que elas podem ocorrer em partes do trem (equipamentos elétricos, eletrônicos, pneumáticos ou mecânicos) e no sistema (sinalização, energia elétrica de tração, via permanente e telecomunicações). Os problemas também podem ser causados por agentes externos, como inundações e raios.
Nos últimos dez anos, a quantidade de passageiros transportada pela CPTM cresceu 46,7%. Em 2001, a companhia transportava uma média de 1,5 milhão de usuários por dia útil. Entre novembro de 2010 e janeiro deste ano, a média foi de 2,2 milhões de passageiros por dia útil.
Essa superlotação amplia os problemas nos casos de falhas dos trens. Nas composições com sistema de ar condicionado, por exemplo, quando há um problema e a ventilação é desligada, os passageiros começam a passar mal, pois não há janelas que possam ser abertas. Assim, muitas vezes os usuários quebram as portas para poder sair e respirar. Nos três meses de novembro a janeiro, o gasto com reparos de equipamentos atingidos por vandalismo nos trens da CPTM chegou a R$ 1,3 milhão. Para se ter uma ideia, nesse período a CPTM registrou 460 ocorrências médicas com os usuários - mas nenhum caso grave.
Outro problema é a enorme lotação em horários de pico em algumas estações, como Brás, Luz, Barra Funda e Guaianazes. Segundo a CPTM, diversas ações são adotadas para amenizar os efeitos da lotação. A empresa afirma que, nos horários de pico, realiza a Operação Plataforma, para dar mais segurança ao embarque nos trens, além limitar o acesso de usuários à área de embarque pelas linhas de bloqueios. A CPTM informou ainda que está comprando dezenas de novos trens e implantando um novo sistema de sinalização em suas seis linhas, o que permitirá a redução do intervalo entre as composições.
Por enquanto, os usuários reclamam. "No horário de pico os trens são muito lotados. Mas em algumas estações, como a Luz, por exemplo, é complicado em qualquer horário", afirma a analista de recursos humanos Sandra Regina de Oliveira, de 36 anos. "A lotação é muito grande. Em termos de conforto, a CPTM é nota zero. A estrutura melhorou nos últimos anos, mas ainda tem muito a se fazer. É muita gente para pouco vagão", opina o estudante Valdir de Souza Leite, de 18 anos.
Segundo o Community of Metros (Comet, órgão que congrega os principais metrôs do mundo) um índice aceitável de lotação é de até 6 passageiros por metro quadrado. Com base nesse dado, a CPTM diz que oferece por dia 4.668.728 lugares, durante as suas 20 horas operacionais, nas seis linhas.
A estudante Maria Cecília Xavier, de 19 anos, utiliza os trens da CPTM todos os dias. No ano passado, sofreu um assalto à mão armada dentro de uma estação. "Tive de ser levada para o hospital, fiquei com síndrome do pânico. Hoje em dia não pego mais o trem quando está lotado", conta.

Funcionários
Embora o número de passageiros tenha crescido, as contratações da CPTM não seguiram o mesmo ritmo. A companhia afirma que "dimensionou o quadro de empregados que trabalham nas áreas de estações, segurança e manutenção para atender às suas necessidades operacionais", mas admitiu que realiza estudos de recursos humanos "para eventuais ajustes nas áreas que se revelem subdimensionadas".
Atualmente, a CPTM conta com 7.245 empregados. Desse total, 6.050 atuam na área operacional, que inclui circulação de trens, estações e segurança, além de manutenção de trens e sistemas. Mas Eluiz Alves de Matos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias de São Paulo, diz que falta pessoal tanto nas estações quanto nos trens.
"Antigamente, em todos os trens tinha um auxiliar para o maquinista. Hoje, quando ocorre um tumulto, ninguém sabe o que fazer. O maquinista está lá sozinho, não tem como controlar a situação", explica o sindicalista. Ele afirma que nos últimos meses a CPTM contratou dezenas de maquinistas, mas lembra que esses profissionais precisam de um período de treinamento de, no mínimo, seis meses.
Matos diz que, com o crescimento da demanda, a CPTM deve colocar mais trens nas linhas para reduzir o intervalo entre as composições. Para isso, é preciso instalar mais subestações elétricas. "O governo investiu, mas precisa investir muito mais."
A CPTM explica que herdou sistemas antigos e compartilhados com o transporte de carga e que precisam ser modernizados para que possam operar com menor intervalo e, assim, aumentar a oferta de lugares e diminuir a lotação. "No entanto, por tratar-se de alteração tecnológica dos sistemas, os benefícios serão sentidos pelos usuários somente à medida em que as ações são concluídas", afirma a companhia.
A empresa diz que está investindo no reaparelhamento das áreas de manutenção, com a aquisição de equipamentos e rigorosos procedimentos de revisão e manutenção preventiva para reduzir o número de falhas. "A complexidade das atividades para a melhoria desses sistemas, sem paralisar a operação comercial, provoca perturbações que interferem com a circulação dos trens", justifica a companhia.

Investimentos
Entre 2006 e 2010, o governo de São Paulo investiu R$ 4 bilhões na CPTM. Atualmente, estão sendo realizadas obras em todas as seis linhas. Na Linha 8-Diamante, por exemplo, cinco estações passam por intervenções para atender a maior demanda e facilitar o acesso. O trecho entre Itapevi e Amador Bueno (desativado para obras) está passando por recapacitação da infraestrutura e reforma das estações para voltar a operar.
Na Linha 7-Rubi, as estações Francisco Morato e Franco da Rocha estão em obras de reconstrução e uma nova estação será construída na Vila Aurora. Na Linha 9-Esmeralda, a estação Osasco está em fase de ampliação. Na Linha 11-Coral, as estações de Ferraz de Vasconcelos e Suzano também passam por reformas. O mesmo ocorre com a estação São Miguel, na Linha 12-Safira.
No começo de fevereiro, quando a tarifa dos trens e do metrô foi elevada de R$ 2,65 para R$ 2,90, o governador Geraldo Alckmin afirmou que o reajuste foi o mínimo para reequilibrar as contas das empresas. O balanço de 2010 da CPTM ainda não foi divulgado, mas em 2009 a companhia teve prejuízo líquido de R$ 353,62 mil. Em 2008, o rombo havia sido de R$ 419,22 mil.
A CPTM alega que opera com tarifa social e incentivada (com desconto), oferece transporte gratuito, por transferência, e para usuários especiais (desempregados, idosos, deficientes, entre outros). "Ademais, quanto maior for a distância percorrida pelo usuário, maior será o impacto de custo, sem a correspondente contrapartida tarifária, uma vez que a tarifa é única independente da distância percorrida", explica a companhia. "Tais circunstâncias induzem, naturalmente, a resultados deficitários quando apurados e demonstrados contabilmente. Ainda assim, o cenário aponta para melhoria do desempenho, tendo em vista o aumento da sua receita operacional e a redução de despesas administrativas."

Transporte metropolitano
Mesmo com todos os problemas, é impossível falar sobre transporte metropolitano sem levar em conta a CPTM. Seus 260 quilômetros de trilhos cortam 22 cidades, sendo 19 na Grande São Paulo. Em comparação, o metrô tem apenas 65,3 quilômetros de linhas, mas transporta mais gente, uma média de 2,56 milhões de passageiros em dias úteis - contra 2,2 milhões da CPTM. Por outro lado, as linhas da CPTM também transportam cargas, o que não ocorre no metrô.
Outro aspecto importante é que a taxa de crescimento da população na região central de São Paulo cai gradualmente nos últimos anos e está próxima de zero. Já a população na periferia e na Grande São Paulo continua crescendo. E são essas as pessoas que precisam se deslocar para o centro da capital, onde estão as vagas de trabalho, por meio dos trens da CPTM.
Para o arquiteto Marcos Kyoto, da consultoria TC Urbes, a CPTM não tem uma rede de trilhos adequada para transportar passageiros. "A malha ferroviária de São Paulo foi construída para transportar café do interior para o Porto de Santos", afirmou, ao participar de um evento sobre mobilidade da organização não-governamental (ONG) Rede Nossa São Paulo, realizado no início do mês na capital paulista. No mesmo evento, Marcos Kassab, assessor da presidência do Metrô, afirma que é "inconcebível" dividir os trilhos da CPTM com o transporte de carga. "É preciso construir um ferroanel", explica.
O ferroanel é um projeto que prevê a ligação entre as principais ferrovias que cortam a Região Metropolitana de São Paulo. A ideia é semelhante à do Rodoanel - ou seja, contornar São Paulo com trilhos que levem ao Porto de Santos, liberando a malha existente para o transporte de passageiros.
Segundo Marcos Kassab, o problema do transporte de passageiros sobre trilhos em São Paulo é a falta de dinheiro para investir. "Não é falta de planejamento, nem de vontade política. Nós temos que expandir, mas sem fazer loucuras. Temos que ter maturidade, saber que não dá para fazer tudo ao mesmo tempo", diz.

Um comentário:

  1. Mais o problema da demanda (lotação), é muito difícil corrigir, pois com mais agi-lides e infra estrutura mais pessoas tem o interesse de começar a usar o trem.
    Sou um usuário, da linha 7, em 2007 os intervalos era de 12 minutos no pico, hoje é de 5 minutos, a lotação é até mais do que em 2007. Com novos trens, confortáveis, seguros, rápidos, estações modernas, isso atrai muitas pessoas, várias deixam de usar seu carro, pois o trem está mais rápido, seguro e muito mais confortavel, e não é todo carro que tem ár-condicionado, né!

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