quinta-feira, 28 de julho de 2011

Acidente de Perus - 11 anos da maior tragédia da CPTM

Imagem: Divulgação de época
Texto: Diego Silva

Há exatos onze anos, acontecia o pior acidente da história da CPTM. Na estação de Perus, da então Linha A (atual Linha 7-Rubi), uma composição foi atingida por um trem desgovernado, causando a morte de nove passageiros, e provocando ferimentos em 124 outros usuários. Até hoje, familiares das vítimas não receberam tudo o que teriam direito, e o tempo passa, sem qualquer resposta. A CPTM afirma ter feito acordos com parentes de cinco mortos. O restante briga até hoje na Justiça por algum benefício, assim como pelo menos metade dos feridos. 

Foto: O estado de São Paulo (28.07.2000)

Segundo laudo da perícia, e da sindicância realizada pela CPTM na época, foi apontada culpa do maquinista Osvaldo Pierucci, que não teria tentado calçar o trem, que começou a se locomover da estação Jaraguá. A composição, da série 1700 (unidade 1740), estava estacionada sentido Francisco Morato, e como trata-se de um trecho de descida, começou a se locomover, onde houve perda do controle. Tudo isso causado graças à uma queda no fornecimento de energia elétrica (algo que era comum na época). O procedimento padrão seria calçar o trem, a fim de evitar sua movimentação involuntária. Mas não havia calços no trem, o que fez com que a composição de construção Mafersa entrasse em movimento (seus freios não foram capazes de segurar a composição). O trem 1740 iniciou o movimento, e ganhou velocidade no trecho entre Jaraguá e Perus, que tem cerca de 5 quilômetros. Ao apontar na curva de Perus, estava estacionado o trem da série 1100 (unidade 1103-1118), que foi fatalmente atingido, sem que houvesse tempo de retirar os usuários da composição 1103, mesmo após os pedidos desesperados do maquinista Pierucci através do rádio, em comunicação com o Centro de Controle Operacional.
Durante depoimentos, o maquinista havia afirmado que tentou improvisar travas com pedaços de madeira, para evitar a movimentação do trem 1740. A comissão de sindicância da CPTM, por sua vez, informou não ter encontrado vestígios de madeira no local do acidente, e que portanto, a tentativa de frear o trem não teria acontecido.


O diretor de operações da época, João Zaniboni, disse em uma entrevista algo bastante forte, que não reflete nada: ''temos que aprender com as fatalidades''. Palavras do secretário de transportes metropolitanos, Cláudio de Senna Frederico: 'se o maquinista tivesse cumprido as normas, não teria acontecido o acidente. O trem estava parado, não foi calçado, e desceu a ladeira' (Folha Online, 12.08.2000). Mas fica a dúvida: o trem precisava ser calçado para não descer?
A CPTM atribuiu a tragédia a um ato de vandalismo. Sindicância interna apontou que houve ação direta de pessoa não identificada no destravamento dos freios de estacionamento enquanto o trem aguardava reparo. Osvaldo Pierucci chegou a ser responsabilizado por autoridades estaduais, mas a apuração foi contestada pelo Instituto de Criminalística. Laudo final do IC concluiu que a culpa pelo acidente era da CPTM. Entre as causas estava o fato de que "não havia calços adequados e disponíveis nas cabines de comando da composição".

Na época, a CPTM divulgou nota oficial com as seguintes informações:

1. Às 19h15, ocorreu, por motivos ainda indeterminados, queda da rede de alimentação elétrica dos trens, entre Jaraguá e Perus, na Linha A (Brás-Francisco Morato). O problema ocasionou interrupção na circulação de trens nas duas vias existentes, motivando o acionamento, pela CPTM, da Operação PAESE (Programa de Apoio entre Empresas em Situação de Emergência) para transportar, por ônibus, os passageiros no trecho afetado entre Pirituba e Perus. Simultaneamente, o Centro de Controle Operacional (CCO) da CPTM passou a operar os trens nas extremidades da linha, entre Brás e Pirituba e entre Perus e Francisco Morato.

2. Uma composição, já evacuada, permaneceu estacionada com seu maquinista e auxiliar a bordo, entre Jaraguá e Perus, seguindo os procedimentos usuais de segurança, com o acionamento de freio de serviço e de estacionamento e rodas do trem calçadas.

3. Às 21h15, o maquinista informou ao CCO que o trem estava se movimentando e tentou brecá-lo novamente. Ciente do risco de colisão com outro trem, estacionado na plataforma de Perus, embarcando passageiros com destino a Francisco Morato, tomou as seguintes providências:

- Chamou, via rádio, o maquinista do trem estacionado em Perus para que este procurasse movimentar a composição no sentido de Francisco Morato. Infelizmente, não foi possível realizar a fuga devido ao rompimento da rede aérea, provocado pelo trem desgovernado.

- Diante do perigo iminente, o maquinista do trem descontrolado, após tentativa de calçá-lo, pediu, sem sucesso, por rádio, a evacuação do trem estacionado em Perus.

- Como medida extrema, o CCO tento evitar o choque dos trens com o acionamento de chave de desvio de via visando descarrilar a composição sem passageiros. A iniciativa foi infrutífera.

4. A colisão provocou, num primeiro momento, 9 mortos e 48 feridos.

Veja uma compilação dos vídeos informativos da época:


Diante de todas as informações que tivemos acesso, tirou-se algumas conclusões:

- Os trens série 1700 não eram dotados de sistemas de freios confiáveis (tanto que em 1995, uma composição rodou desgovernada entre Vila Clarice e Piqueri)
- A rede aérea sofreu queda de energia, a terceira naquela semana. Não havia manutenção corretiva.
- O secretário de transportes foi um tanto enfático ao criticar a CPTM, jogando toda a culpa na empresa, visto que a Companhia é subordinada do estado.
- Após o acidente, medidas cautelares foram tomadas, algo que deveria ser feito com maior regularidade.

Atualmente


Atualmente, a rotina diária na estação de Perus segue, como se praticamente nada tivesse acontecido. Muitos dos usuários sequer sabem que ali aconteceu tamanha tragédia há onze anos atrás. Em visita à estação de Perus, para realização de alguns registros fotográficos para compor essa matéria, notou-se uma mera tranquilidade, com usuários em suas rotinas. Acima, a foto de um trem série 1100, igual à composição que recebeu a colisão do trem desgovernado da série 1700. A cena pode ser imaginada observando essa imagem, pois de 2000 para cá, apenas a cobertura na plataforma não fazia parte da cena trágica.


A estação foi reconstruída, usando a mesma base de antes. Não foi necessária uma obra de grande magnitude, e ainda é possível observar os prédios históricos preservados. As plataformas ganharam cobertura, e a passarela foi recolocada em seu lugar (nas primeiras imagens, é possível ver a passarela derrubada, com o impacto dos trens). O fluxo de passageiros aumentou muito desde 2000, fazendo da Linha 7-Rubi uma das mais movimentadas do sistema. Com a chegada de alguns trens novos, iniciou-se a mudança de imagem da CPTM, que investe para garantir um transporte de qualidade para seus usuários.


Os trens envolvidos no acidente de Perus foram perdidos, pois a colisão destruiu ambos. Na imagem acima, nota-se dois exemplares iguais das frotas envolvidas: série 1100 e série 1700. Esses trens não deixaram de circular em nenhum momento na Linha 7, onde prestam serviços com grande destreza. A mudança, de 2000 para cá, foi a modernização da série 1700, que passou por revisão geral, ganhando inclusive, novos sistemas de freios, mais seguros e confiáveis que os anteriores.

Fica aqui registrado mais um aniversário do acidente. O Blog CPTM em Foco deixa sua homenagem póstuma às vítimas do acidente de Perus, e os sentimentos para os familiares das vítimas.

Arnaldo Alves Santos, 39 anos;
Daniele Carachesque Vieira, 11 anos;
Elzo de Jesus Santos;
Leandro Pereira Bernardes, 20 anos;
Luiz Ferreira Lima, 44 anos;
Paulo Martuchi, 60 anos;
Redva Maria dos Santos Santana, 35 anos;
Selmo Quintal, 24 anos;
Maria Bernadete dos Santos.

As informações aqui exibidas foram digitadas de acordo com informações da Folha de São Paulo, onde seu portal exibe notícias da época. A responsabilidade do texto está, em partes, sob responsabilidade de Diego Silva, não expondo totalmente a sua opinião sobre os fatos.

23 comentários:

  1. Diego, o trem 1700 (1741-1742) que roda na extensão operacional (Francisco Morato a Jundiaí) tem os freios originais, igual ao freio dos 1700 antes do acidente? (já que aquela unidade é a única que roda com a cor original e não tem portas como passagem de um carro e outro...)

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    1. Acho que não, ele deve só ter passado por revisão e não pintaram ele, sei lá.

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  2. Wagner, a unidade 1741-1742 recebeu novos sistemas de freios, durante sua remobilização, em meados de 2009. Nenhum dos trens da série 1700 possui os mesmos sistemas de freios da época do acidente. O que não aconteceu com o 1741/42 foi a modernização completa, ou seja, os trens dessa série que receberam modernização, tiveram alteração nas passagens entre carros. Os 1700 pratas eram 'reservas técnicas', e acabaram não recebendo essa divisória.

    Obrigado pelo elogio, Ricardo!

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    1. parabéns Diego pela matéria.Apenas gostaria de deixar registrado minha indignação contra o transporte público nesse País que não investe em melhorias.E também a dor que ainda sentimos pela perda de meu irmão Selmo Quintal que morreu tentando parar a composição.
      Dinheiro nenhum no mundo apaga essa dor.

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    2. Soraia, obrigado por comentar a matéria. Deixo também meus sentimentos para a família, que ainda hoje sofre com a perda. Eu era criança na época do acidente, tinha 9 anos, mas acompanhei com muito interesse para saber o que havia acontecido.
      Seja sempre bem-vinda por aqui =D

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  3. Boa Tarde Diego,

    Muito boa a reportagem...divulguei no twitter do meu blog. Vemos que pelo menos houve melhoras nas linhas da CPTM, no entanto estas estão longe de se tornarem com padrão de Metrô.

    Abraços

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  4. Agora compreendo, mas uma pena não terem ainda modernizado toda a frota...

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  5. Espero que futuramente os 1700 recebam o novo padrão de cores da cptm, uma modernização incluindo ar condicionado e nova disposição de bancos (iguais aos das séries 1100 e 7000)

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  6. Bem interessante essa matéria mas num outro poste você disse que a unidade 1118 do 1100 foi reaproveitado e foi adaptado a uma unidade do 1400 e está circulando normalmente.

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  7. Me lembro que em meados de 1996/1997, essa linha ficou interrompida por completo durante vários meses. Na época eu ainda era moleque e me lembro dos ônibus que foram colocados saindo da Estação da Lapa e indo até a Estação Baltazar Fidelis passando antes pelo Centro de Francisco Morato. Alguém tem algum informação desta época? Do que realmente ocorreu? Fotos, reportagens?

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  8. Olá Renato! Obrigado pelo elogio à matéria, bem como por ter divulgado a mesma. Ainda falta muito mesmo para alcançarmos o padrão Metrô de superfície, mas aos poucos chegaremos lá.

    Wagner, os trens da série 1700 irão passar por revisão geral até 2014, e provavelmente irão ganhar ar-condicionado. Ainda não sei dizer quando isso ocorrerá, mas será em breve.

    Celso, a unidade 1118 foi reaproveitada pelo seguinte: no acidente, quem sofreu o impacto foi o 1103. Estragou partes do 1118, que teve um carro substituído por um de 1400.

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  9. Prezado mfspinelli, não sei dizer ao certo o porque da paralisação na Linha A entre 1996 e 1997. Mas pelo que conta a história, os usuários dessa época eram um pouco violentos, e eu sei de uma história onde houve atrasos nos trens, e os usuários destruíram estações. Acredito que tenha sido nessa época, por isso, a circulação ficou interrompida. Fotos e reportagens desse tempo são bastante escassas, mas vou procurar algo a respeito, e venho dizer à vocês o mais breve possível.

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  10. Outra coisa Diego que queria tirar a duvida estive olhando pelo trem no patio da estação Lapa se eu não me engano parece ter 1 ou 2 unidades do 1700 da cor prata fóra de operação se é um desses ai que foi envolvido no acidente ou é outro trem 1700 fóra de uso?

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  11. Celso, a unidade envolvida no acidente 'desapareceu' da CPTM. Dizem por aí que a mesma está em Cruzeiro, ou em Araraquara. Mas as unidades que você viu na Lapa são 1707-1708-1719-1720, que estão fora de operação, similares ao 1723-1724 que está no pátio da Luz. Curioso notar que existe a unidade 1739-1740, no padrão metropolitano.

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  12. Obrigado Diego por ter tirado essa duvida, sobre o 1740 é bem estranho mesmo saber que esse trem está operando será que fizeram uma magica? Nas fotos ele ficou bem destruido se conseguiram recuperalo fizeram um trabalho de mestre e sobre o 1118 eu vi ele hoje lá estacionado no patio da Lapa nem parece que fizeram essa adapatação do 1400 nele , já sobre as pessoas que morreram resta lamentar mesmo porque é uma pena que essas vidas não podem ser recuperadas como esses trens que foram envolvidos nesse acidente.

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  13. Até esqueci de comentar hoje quando ia pra estação Luz já tinha gente reclamando uma moça e um senhor de idade falando da demora porque o trem parou 2 vezes o condutor avisou que estava aguardando a movimentação do trem a frente,vinha 2 trens da Luz para Francisco Morato nessa parte até entendo o povo precisa entender que pressa pode gerar acidentes já pensou se acontecesse dos trens se chocar depois falam que a culpa é do condutor ou da CPTM o povo precisa ser mais paciente e entender esse tipo de procedimento.

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  14. Celso, usuário não entende o que acontece nos bastidores da operação. Por mais que eu procure explicar no blog, o alcance ainda não é o esperado. Um dia, com muita luta, alguém irá entender que tudo se faz pela segurança.

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  15. Na verdade o maior acidente de trem de São Paulo ocorreu em 1987 morreram 46 pessoas. http://www.tgvbr.protrem.org/phpBB3/viewtopic.php?f=72&t=3124

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    1. Sim, esse é o maior acidente que temos notícia, mas foi na era CBTU. O acidente de Perus foi o maior da era CPTM.

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  16. A estação nova que estão construindo entre Jaraguá e Perus deveria receber o nome do auxiliar de maquinista, Selmo Quintal, morto no acidente de 2000 como homenagem. Eu li numa reportagem da época que ele recusou-se a descer do trem e tentou, até o último minuto, parar a composição sem sucesso. Depois, ao avistar a estação Perus, saltou do trem que ia a 70 km por hora na tentativa desesperada de se salvar e acabou falecendo. Luciana Hofjud

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  17. A estação nova que estão construindo entre Jaraguá e Perus (Vila Aurora acredito eu), devia receber o nome do auxiliar de maquinista Selmo Quintal, como homenagem. Eu li numa reportagem da época que ele se recusou a abandonar a composição desgovernada, tentando freá-la ou desviá-la até os últimos momentos. Finalmente, avistando a estação Perus, saltou do trem em movimento que ia a 70 km/h, numa tentativa desesperada de salvar-se e acabou falecendo. Luciana Hofjud hofjudluciana@uol.com.br

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