quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Entrevista - Daiane Kowalewski, maquinista da ABPF-RS

Daiane Kowaleski - A única maquinista de locomotivas à vapor do Brasil
Entrevista: Diego Silva
Fotos: Acervo Pessoal - Daiane Kowaleski

Uma história de amor e ódio. Assim pode ser definida a trajetória de Daiane Kowaleski nas ferrovias. Foi por conta de um problema de audição que ela passou a não gostar de trens. Por conta de um acidente com um trem da ALL que viu em Ijuí, foi pesquisar a numeração de um vagão. Com essa pesquisa, começou a pesquisar mais e mais sobre a história ferroviária. Hoje, Daiane é maquinista na ABPF (Associação Brasileira de Preservação Ferroviária). Já seria um status enorme, se não fosse por um detalhe: ela é a única mulher maquinista de trens à vapor do Brasil. Dedicando parte de seu tempo, Daiane atendeu ao blog CPTM em Foco. Direto de Ijuí, no Rio Grande do Sul, respondeu algumas perguntas para nossa entrevista. Confira abaixo alguns trechos de um bate-papo com a maquinista:

Diego Silva: Conte-nos um pouco sobre seu gosto por trens e ferrovias
Daiane Kowaleski: Tudo começou em 2006, quando me mudei para Ijuí-RS. Até então, nunca tinha visto um trem ao vivo e a cores. Só que tinha um problema: eu estava com um problema nos ouvidos, uma inflamação. O barulho dos trens passando aqui era terrível para mim, tanto que passei da curiosidade ao ódio (veja bem). O ódio durou o tempo de eu me curar da inflamação e o barulho não me incomodar mais. Houve um acidente com tanques aqui na cidade, vi a foto no jornal. Na foto, que tenho até hoje guardada, tem as letras e a numeração SIGO na traseira do tanque tombado. Essa combinação alfanumérica foi o que me levou a pesquisar sobre o que significava. Fui pesquisando cada vez mais e mais, até chegar a informações mais técnicas e detalhadas, sobre mecânica, elétrica, modelos etc. Então, o ódio virou amor.

DS: Você sabe que esse é um universo predominante masculino. Como se sente nesse mundo?
DK: No início foi estranho, um pouco complicado. E pouca gente acreditou mesmo que eu levava a sério. Mas depois com o tempo, foi modificando. Hoje eu tenho longas conversas com ferroviários, ex-ferroviários. E aprendo muito com isso. Acontece hoje, por exemplo, eu estar circulando pelas linhas e as pessoas falarem, "ah, é a maquinista", hoje ninguém estranha mais minha presença nos trilhos e trens.

DS: É uma curiosidade que alguns ferroviários de São Paulo não sabem: Você é a única maquinista de trens à vapor do Brasil, não é mesmo?
DK: Exatamente. Existem mulheres maquinistas no Brasil. Mas de locomotivas a vapor especificamente, sou a única.

Daiane, durante mais uma viagem, no comando de uma locomotiva a vapor da ABPF-RS

DS: Como lida com esse status de ser a única maquinista de trens à vapor do país?
DK: Sabe, nem penso nisso. As pessoas se espantam. Mas é porque é um trabalho pesado, que envolve sujeira, e as mulheres realmente não são afeitas a isso. Mas eu gosto muito desse trabalho. Não vejo dessa forma.

DS: Sobre a realidade ferroviária do país, como você vê a presença da mulher daqui para frente, seja na operação, seja no apoio?
DK: É algo que tende a acontecer. A presença feminina já está em muitas classes de trabalho consideradas antes como masculinas. Eu tenho primas que são caminhoneiras, por exemplo. Eu só escolhi um meio de transporte um pouco mais pesado. E as mulheres são detalhistas, atenciosas. O mercado de trabalho está percebendo isso. Na ferrovia não vai ser diferente, a realidade está mudando. Temos mais mulheres maquinistas, mais mulheres nos CCOs (Centro de Controle Operacional), nas estações. E já vejo mais mulheres fotografando trens, além de mim. A presença feminina na ferrovia vai aumentar, e o tabu de trabalho masculino vai ser derrubado. Isso tende a acontecer como já aconteceu diversas vezes.

DS: Deixe uma mensagem para os ferroviários e ferroviárias do Brasil que estão lendo essa entrevista nesse momento.
DK: Bom, só digo que não é uma profissão tão visada no Brasil. E que isso tem que ser mudado. O ferroviário é uma classe muito importante para a economia. Levamos e trazemos riquezas, mercadorias, diversão e cultura. A ferrovia precisa ser valorizada. Todos os países que tem uma economia forte, possuem uma ferrovia forte e bem desenvolvida. Não entendo porque é diferente aqui. Mas acredito que essa realidade está mudando, e finalmente a ferrovia está tendo mais atenção, mais investimentos, e é assim que deve ser. E que os ferroviários sintam-se orgulhosos por estar levando a economia do país em seus trens Brasil afora.

Daiane, em passeio ferroviário Curitiba x Paranaguá, no Paraná

10 comentários:

  1. Muito legal a entrevista! Parabéns pela iniciativa!

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  2. Achei muito bacana. A ideia poderia ser expandida e virar um quadro fixo do site. Existe muito pessoal gente boa na CPTM e Metrô que adoraria ser entrevistado e tem sempre ótimas histórias pra contar. Parabéns pelo blog, e no aguardo pelas novas entrevistas!
    Abraço.

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    1. Obrigado Bruno! Essa é mais uma das novidades que teremos para esse ano de 2012. Todo mês, uma nova história de alguém que vive na ferrovia. Obrigado pelos elogios, seja sempre bem-vindo! Abraços

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  3. Bonita moça,bela reportagem e fico feliz em saber que tem mulheres que gostam de trens e esta ainda opera uma locomotiva a vapor.
    Parabéns pela reportagem.

    Clayton-ABC

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    1. Obrigado Clayton. Foi um prazer poder entrevistar a Daiane, mostrar que a ferrovia vai muito além do que imaginamos hoje em dia. Tenho orgulho de ter conhecido ela, de poder contar a sua história aqui.

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  4. Parabéns pela matéria. Muito boa e interessante. É uma pena que a ferrovia ainda não é vista como prioridade aqui no nosso País e espero que, como ela diz, essa visão esteja mudando e tenhamos muito mais investimentos nos próximos anos.

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  5. Muito boa a entrevista.
    Que legal ver o 'Em Foco' se expandindo cada vez mais !
    Achei a maquinista muito bonita.

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