quarta-feira, 14 de março de 2012

Artigo: Ferroviário, o culpado da vez


Fonte: Campanha SP Trem Jeito - Sinferp


Descobrir o culpado é motivo básico dos clássicos da literatura e do cinema do gênero policial. Não é diferente na vida real, regrada pelos ordenamentos religiosos e jurídicos.

O problema é que esse tipo de valor, movido pelo binômio culpa-castigo, avançou além dos limites aceitáveis, e entrou no imaginário de toda uma sociedade, sob a orquestração ingênua ou intencional dos meios de comunicação.

Quase tudo, nos dias de hoje, se faz conduzir por culpa, castigo e perdão. Nessa medida, apenas erros, disfunções e tragédias tornam-se objetos do interesse público, mas são tratadas como enredos meramente novelescos.

Os acidentes com trens da CPTM, e seu tratamento diante da opinião pública, têm sido um exemplo típico desse gênero.

Em TODOS os acidentes, empresa, governo e mídia mostram-se interessados na identificação dos culpados que, quando atirados aos leões pela empresa e governo, revelam o final da história. Diante dessa atitude grotesca, CPTM e governo recebem o perdão dos usuários e das autoridades policiais (cujos processos são arquivados, uma vez que os responsáveis foram identificados e punidos) e caem no esquecimento.

Sabendo desses comportamentos - e por eles beneficiados -, gestores da CPTM e autoridades do governo do Estado de São Paulo estão usando e abusando da fórmula.

Se algum ferroviário morre na via, atropelado por um trem, a culpa é do morto. Afinal, o que fazia na via? Trabalhava na via, oras.

Se o ferroviário atropelado na via não morre, a culpa é do maquinista. Por que do maquinista, se possivelmente não sabia que tinha colega trabalhando na via?

Se um trem descarrila por uma distância que provoca grandes danos materiais, a culpa é do maquinista. Por que do maquinista? Por que não de quem mandou desativar todos os sensores de descarrilamento de uma série inteira de trens?

Se um acidente ocorre porque o controlador do CCO identifica em seu monitor um trem que não corresponde ao que de fato está na via, ele é demitido. A ninguém ocorre que o “sistema” realmente forneceu a ele uma falsa identificação daquele trem.

Se não descarrila, não bate, ninguém morre ou sai ferido, o “incidente” não consta dos registros. Afinal, “nada aconteceu”. Nessa medida, não há culpa e nem castigo.

Estou positivamente surpreso com a matéria da jornalista Carol Rocha, do Diário de São Paulo, reproduzida neste blog. Ela relata um “quase acidente”, que poderia ter ceifado vidas de vários ferroviários da CPTM, tendo por repetitiva causação trabalhadores da via permanente e maquinista não saberem uns dos outros quanto à localização no tempo e no espaço ao longo da via.

Apenas essa jornalista publicou matéria sobre esse “incidente”, ao menos pelo que é de meu conhecimento.
Ninguém está percebendo que os acidentes que se tornam notícia (pois passíveis de culpa e castigo) são apenas a ponta de um gigantesco iceberg.

Enquanto ninguém se pergunta sobre as razões sistêmicas deles todos, resta esperar pelo próximo acidente, e pelo “culpado da vez”.

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