quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Histórias do Trecho - ''A caçambinha''

''Nunca será apenas uma viagem de trem, mas uma chance de fazer boas ações e novos amigos''

Por Diego Silva

Como parte da renovação do blog, vamos adicionar aleatoriamente algumas histórias que vivencio no trecho... Para muitos, é só entrar no trem e ir do ponto A ao ponto B, ora num trem cheio, ora de mais sorte num trem vazio... Todas as histórias que lhes contarei são verídicas, pois vivenciei cada uma delas.

Na noite de domingo, 3 de janeiro, estava no Metrô, a caminho de mais uma jornada... Desde o início do ano, estou trabalhando no período noturno. Na estação República, um homem aparentemente perdido embarcou no carro e perguntou aos passageiros se aquele trem iria até Palmeiras-Barra Funda. Após a confirmação de todos, ele se apresentou: se chamava Márcio, era daquelas pessoas que se aventuram na vida tentando ganhar algum dinheiro para sustentar a família... Só que desta vez não teve sorte e o sujeito que o recrutou para trabalhar por aqui havia aplicado um golpe em todo o grupo: havia sumido com o dinheiro do serviço e deixado o pessoal na mão.

Márcio foi muito sucinto e honesto: apresentou seu documento e uma quantia de R$ 91,00 que havia arrecadado durante o dia, com o intuito de comprar um passagem rodoviária para sua cidade, Rondonópolis, no Mato Grosso. Lhe faltava quase duzentos reais para completar o devido valor. Nisso, já eram quase dez horas da noite. Cientes de que não era nenhuma pessoa procurando aplicar golpe ou fingir necesidade (como infelizmente vemos muito nos trens e agora no Metrô), os passageiros iniciaram uma pequena ajuda ao pobre homem. Apesar da reserva e do silêncio, o paulistano ainda tem compaixão de pessoas que necessitam. Ao me ver uniformizado, Márcio pediu desculpas por estar pedindo e lhe respondi não haver problema e que não lhe faria mal algum.

Próximo do terminal, o matogrossense agradecia a cada um que lhe ajudava e contava que seu filho Bruno, de 4 anos, o aguardava em casa... E havia feito um pedido especial de Natal: que o pai levasse uma ''caçambinha'' para ele (um caminhão com caçamba de brinquedo). Foi o bastante... abordei Márcio na plataforma e puxei assunto sobre o que fazia em São Paulo e quanto lhe faltava para ir pra casa. Abatido, com uma barba fechada e bastante magro, disse esperançoso que mais R$ 140 e conseguiria voltar para sua família, apesar do ônibus para sua cidade só partir na manhã do dia seguinte. Questionei se havia alternativa e ele afirmou sobre um outro carro que o levaria até a cidade de Presidente Prudente, no interior de São Paulo, partindo às 23h30. De lá, seria mais fácil ir até sua cidade. De imediato, o levei até o guichê de passagens da Viação Andorinha e lhe comprei a passagem até a cidade paulista. Sem acreditar, Márcio não conteve as lágrimas e me agradecia como se eu fosse a sua salvação naquele momento.

De passagem na mão e com algum dinheiro para poder comer e voltar para casa, quase sem palavras para agradecer e ainda sem acreditar, me cumprimentou e disse as seguintes palavras: ''Você é uma pessoa boa, de Deus. Ainda existem pessoas boas nesse mundo e você é uma delas. Infelizmente, muita gente boa já morreu nas mãos de gente ruim, que mata por nada. Que Deus tire todo o mal de seu caminho e que lhe abençoe sempre, pois não pode existir uma pessoa que sai do seu trajeto para vir ajudar outra sem ao menos a conhecer''. Agradeci a bondade das palavras e reforcei para que tivesse cuidado até seu trajeto... Deixei que fosse comer, pois havia passado o dia lutando para reunir alguns trocados e segui meu caminho, para poder atender minha escala de trabalho. Durante o trajeto para Osasco, fiquei refletindo sobre uma pequena atitude de ''salvar uma vida'' perdida em São Paulo, com um filho pequeno e uma esposa preocupada em casa... 

Às vezes a gente faz pouco caso de algumas situações... Infelizmente muitas pessoas chegam em São Paulo sem qualquer estrutura ou suporte, com a cara e a coragem, para tentar melhorar de vida. Sou filho de nordestinos que vieram tentar a sorte por aqui e conseguiram se estabelecer, posso falar com propriedade do assunto. Márcio não será o primeiro nem o último. Mas fico contente de ter feito uma boa ação, que não me custou muito, mas foi de um valor inestimável para ele e para a família dele em Rondonópolis-MT. Queria poder observar sua chegada em casa e a reação do menino Bruno, ao ganhar o presente solicitado antes da partida do pai, sem saber se voltaria para casa... Às vezes, pessoal, um pequeno gesto desse alivia a alma da gente. Todos temos dificuldades, mas ao primeiro sinal de tranquilidade financeira, não hesitei em ajudar um irmão necessitado. Espero que ele esteja bem, em paz com sua família e seu filho.

Essa foi mais uma história das muitas que a ferrovia me proporcionou...

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